Durante muito tempo, os livros escolares reproduziram a fábula segundo a qual a sociedade e a cultura brasileira formaram-se pela convivência pacífica de três raças: o branco europeu, o índio nativo e o negro africano. Com a contribuição desses três grupos, um passado harmonioso teria formado uma identidade nacional: a brasilidade.
Forjada pelos grupos dominantes, essa visão buscou representar e reproduzir um povo dócil, fruto da mistura democrática de etnias e culturas diferentes. Uma vez silenciados, os conflitos e as contradições não estimulariam os grupos subordinados a lutar por mudanças.
Nosso país se desenvolveu ao longo dos séculos, assentado na escravidão indígena e africana, no latifúndio, na extração de nossas riquezas naturais e na monocultura voltada para a exportação, beneficiando as elites dominantes. No entanto, durante o período escravista, mas não apenas nele, negros e negras insurgiram-se contra a escravidão e o racismo. As fugas e rebeliões e a formação de quilombos, desde o início estão presentes em muitos ‘Palmares’ país afora.
Passados mais de 120 anos da abolição da escravatura, somos um país no qual metade da população (50,3%) é considerada negra (IBGE, 2010). A população afro-descendente, no entanto, representa mais de 70% da população mais pobre. No mercado de trabalho, com a mesma qualificação e mesma escolaridade, uma pessoa negra recebe em média quase a metade do salário pago a uma pessoa branca. Em nossas cidades, mais de dois terços dos jovens assassinados entre 15 e 18 anos são negros. Negras e negros são quase ausentes nas universidades públicas. Apesar dessa realidade ainda causa polêmica ações afirmativas como a política de cotas.
Por outro lado, a população branca sente-se pouco incomodada quando o assunto é racismo. Muita gente, apoiada numa racialidade neutra, não nomeada, simplesmente agradece a “sorte” de ter nascido branca. Sem outros questionamentos, pode usufruir dos privilégios da branquitude.
Por tudo isso, o problema racial no Brasil deve ser discutido não como um problema das relações entre negros e brancos, pois sua solução envolve os dois grupos. Relações étnico-raciais interessam àquelas pessoas que lutam por uma vida digna e plena para toda a população.